14.2.11

Minha mulher, outra cerveja...

Estávamos atrasados. Eu me demorava no que parecia ser toda uma cozinha em miniatura, rosa e perfeita a cada detalhe em que me detinha. “Eu é que não compro isso para ela!”, me guiava pela mão loja adentro.

Minha mulher tem mãos de noiva, firmes e tenras. Seus afagos, desde os tórridos aos mais ternos, eu amo dum mesmo modo a um só tempo. Deixo-me guiar. Levamos, enfim, uma pequena fazenda cujos animais – grandes o bastante para que minha afilhada não os engolisse – nenhum som emitiam. Uma chatice.

Estive “amuado” todo o dia e a perspectiva de não nos servirem bebida alguma numa festa infantil me deixou ainda menos festivo. Chegamos e, lá, éramos o único casal sem filhos. Pronto: além de amuado, agora me sentia só e estéril. Beatriz, com seu vestido de boneca, fora dormir cedo, cansada de ser paparicada após uma série de fotografias.

Algum convidado, dotado da sagacidade dionisíaca, antevendo o cochilo das crianças, comprara uma dúzia de cervejas, que os adultos se apressaram em sorver sob o calor carioca – implacável nos últimos dias. Anie, minha mulher, diante da cogitabundice cabisbaixa em que me pus, a mão sobre a minha.

– Outra cerveja, amor?

“Não.”, dissimulado, um sorriso sem dentes. Trouxe a cerveja e, como se algo lhe ocorresse subitamente, foi ao banheiro. Quando voltou, nos sentamos mais próximos que de costume, os braços entrecruzados.

Anie, embora prefira o Carpinejar, é a primeira leitora dos meus poemas e será, caso não me converta num imbecil da noite para o dia, minha última mulher. Eu não devia te contar, mas esse calor, mas outra cerveja botam a gente comovido...

2


  1. Anie.

    O que dizer além de:
    * Você sempre acerta nas palavras
    * É uma bela crônica
    * ainda tenho os olhos cheios de lágrimas.

    18 de março de 2011 às 13:23

Comente. Ou cominta.

Saiba, entretanto, que todos os comentários serão submetidos a mim e, por mais articulado que seja, seu idiossincrático cinismo, apesar de bem-vindo (e do que seu Terapeuta diz), não me interessa tanto quanto o bom, sempre estimulante e tácito desdém.

P.S.: A detratores acovardados e Loucos de Fórum, versão escrita dos "Loucos de Palestra", é reservado o anonimato.