24.1.11

Ícaro ocaso, poemas.

Seleção de Anie Francisco.

as-
simetria

desconfia
das mulheres equilibradas
essas são
loucas de pedra

ou
bustos de bronze






Esfinge

outrora alta ex
fingia. agora
salta e me devora.




me decidi
pelo ímpeto sabático
contra meu desejo

deita o hálito
no meu beiço
que tenho o espasmo
refreado do
tísico por tossir na ante-sala

a cólera calada
de uma estátua

aonde viessem urinar os bêbados




rezam terços

vida é terço
feijão mais dois
terços, arroz



Narciso em crise

se lá gosto
que me tente
o meu oposto

gosto sempre
(quando aposto)
a contragosto?

eu malposto
no meu rosto
inverso, assim,

pólo oposto
a meu desgosto...
...avesso a mim?!



Mulher que vi

vi uma mulher
branco-rósea
esguia esbelta
andar compassado leve
fosse – súbita
alçar vôo
uma mulher...

...ou foi um flamingo?



vê-la não
raro sereno

uma estrela
bilaquiana em
ambos os
olhos pequenos

ainda
o bocejo
moreno a
cada vicejo
linda


outra lavora

versicultor lavra
terra-sintaxe
feito sentisse
dor, palavrapalavra






In: FONSECA, Felipe da. Ícaro ocaso. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010.