8.11.10

Stand-up Poetry.

Lobo Antunes tem razão: os bares estão cheios de poetas que não escrevem. Tempos difíceis, esses, em que os olhos se voltam para os autores. Olhos ávidos, aliás. Se voltam à procura de algo mais que a escritura. Uma performance, talvez.


Eu sou poeta. E o sou quando escrevo. O poema, digo. Nesses tempos difíceis, sou um Ninguém dos maiores, acredito. As pessoas não vão a jantares, coquetéis para ouvir poesia, vão – antes – para assistir à performance perpetrada pelo autor, cuja persona acaba por suplantar a obra. Este, após apresentar-se, será simpático ou não, um erudito ou não, entusiástico ou não e, vejam vocês, até um gênio – ou não.




Tempos, esses, também difíceis para os olhos ávidos. Tanta bobagem se ouve (e mesmo se lê) Brasil afora. Certo, tenho minhas reservas quanto à poesia “falada”, mas não generalizemos. Reserva maior é a que tenho quanto aos sucessivos happenings. Shit happens, you know.


O último sarau que, digamos, presenciei, sucedeu há alguns anos, três ou quatro. Presenciei por completo acidente, a propósito. Acontece que, então, eu era habitué de um pub discreto, desses em que se pode beber sem perturbações e não percebi que, mais tarde naquela mesma noite, haveria o tal sarau. Quando dei por mim, estava cercado por cabeludos calçando sandálias (nem todos eram como os descrevo, mas convém o estereótipo). Já bêbado o suficiente para subjugar minha aversão e, confesso, para considerar a idéia de mudar-me para outro bar extenuante, resolvi ficar. Disse a um dos cabeludos, quando intimado a participar, que não lia meus poemas. Sob olhares atônitos, emendei: “É que o autor, lendo os próprios poemas, institui uma leitura última. Um enjambement definitivo, quero dizer.”. Entre confusos e recompostos iam, eles, com suas melenas e sandálias. Cheguei a ouvir alguém resmungar algo como “Poeta tímido!” com certa incredulidade na voz, impostada.


Tempo difícil - mas difícil mesmo, era aquele sincrônico ao dessa poesia, tempo do sufoco, quando o poema não dispunha de mais que sua biotônica vitalidade contra motivo de força maior (AI-5). “Poesia ruim, sociedade pior”, li em algum lugar.

Esses, não. Esses são tempos ridículos, de alheamento voluntário, de vazio ressonante e de palato mole. De lustro pulp, pop (no fundo, sem dentro). Da intelligentsia de redatores publicitários. Da "sacada pela sacada", sacou?


Em agradecimento ao Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma, Cabral dizia:
"Não sei como é em vossos países do Norte, mas no meu, (...) a palavra poeta tem certa conotação que vai de bohêmio a irresponsável, de contemplativo a inspirado, coisas essas que nada têm a ver com a minha maneira de conceber a poesia (...)"
Curioso constatar que eu já pensava de modo parecido antes de conhecê-lo, ou de imaginar uma carreira literária. Afinal, como imaginá-la, uma carreira, sem conhecimento da obra cabralina?


Dito isso, sou poeta - sem afetação ou excentricidade. Poeta. Quando a escrevo, a puisia. Assim mesmo, sentado e o melhor que posso: poeta. Como deixo, agora, de ser blogueiro - que tenho mais o que fazer, ora.

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Saiba, entretanto, que todos os comentários serão submetidos a mim e, por mais articulado que seja, seu idiossincrático cinismo, apesar de bem-vindo (e do que seu Terapeuta diz), não me interessa tanto quanto o bom, sempre estimulante e tácito desdém.

P.S.: A detratores acovardados e Loucos de Fórum, versão escrita dos "Loucos de Palestra", é reservado o anonimato.